Capa » Cabelos » Oleação capilar: o ritual ayurvédico com óleos e ervas que começa pela raiz

Oleação capilar: o ritual ayurvédico com óleos e ervas que começa pela raiz

Passar óleo diretamente no couro cabeludo antes de lavar os cabelos se tornou uma das práticas mais reproduzidas nas redes sociais nos últimos anos. Basta procurar por hair oiling para encontrar milhares de vídeos mostrando a aplicação de óleos entre as mechas, seguida de massagem. O que hoje aparece como tendência de beleza, porém, encontra paralelo em práticas de cuidado muito mais antigas. Na tradição ayurvédica, a cabeça e o couro cabeludo recebem atenção especial, e a aplicação de óleos preparados com plantas faz parte desse repertório há séculos.

Uma dessas práticas é conhecida como Shiro Abhyanga. Shiro significa cabeça, enquanto Abhyanga está relacionada à prática de oleação acompanhada de massagem. Em vez de se limitar à aplicação de óleo nos cabelos, o ritual direciona o cuidado para um lugar que a rotina cosmética contemporânea muitas vezes deixa em segundo plano: o couro cabeludo.

Eu gosto de fazer uma analogia muito simples: quando queremos que uma planta cresça forte, não cuidamos apenas das folhas. Olhamos para o solo e para a raiz. Com o cabelo, durante muito tempo aprendemos a fazer o contrário. Passamos máscaras no comprimento, reparadores nas pontas, produtos para brilho e aparência do fio, mas esquecemos que existe um couro cabeludo de onde esse cabelo nasce. Na minha prática, a oleação começa ali”, explica Nina Habib, terapeuta ayurvédica e fundadora da Taila Veda.

O cuidado começa antes do fio

O cabelo que conseguimos tocar e enxergar é apenas uma parte da história. É por isso que, na forma como Nina ensina a oleação, o objetivo não é encharcar comprimento e pontas. O óleo é aplicado diretamente no couro cabeludo.

O cabelo pode ser dividido em mechas e o óleo aplicado com conta-gotas próximo à raiz, permitindo uma distribuição mais precisa. Depois da aplicação, o couro cabeludo é massageado suavemente com as pontas dos dedos.

Eu não ensino a levar o óleo até as pontas. Meu foco é o couro cabeludo. É ali que faço a aplicação e a massagem. Quando entendemos isso, a oleação deixa de ser simplesmente mais uma máscara pré-lavagem e passa a ocupar outro lugar dentro do ritual”, explica Nina.

O óleo permanece no couro cabeludo antes da lavagem. Na rotina ensinada por Nina com o Força de Gaya, a recomendação de uso é deixar agir por pelo menos duas horas. Também é possível permanecer com o óleo durante a noite e lavar os cabelos normalmente depois.

A constância é outra parte importante da prática. Nina costuma ensinar a realização do ritual de duas a três vezes por semana durante os primeiros meses, seguida de uma fase de manutenção em que a oleação pode entrar uma vez por semana na rotina.

Não se trata, portanto, de aplicar uma grande quantidade de produto uma única vez. O princípio está ligado à repetição do cuidado ao longo do tempo.

Nem todo óleo é preparado da mesma maneira

Outro ponto que se perde quando a oleação é reduzida ao hair oiling das redes sociais é que, dentro da Ayurveda, não importa apenas passar “algum óleo” no couro cabeludo.

Existem preparações tradicionais chamadas tailas, nas quais o óleo funciona como veículo para plantas selecionadas. Na tradição ayurvédica, há métodos específicos para preparar esses óleos medicados. Um deles é conhecido como Taila Paka Vidhi, processo que envolve óleo, plantas e preparações líquidas em etapas de cocção e redução.

Isso é diferente de simplesmente misturar algumas gotas de um ingrediente pronto a um óleo vegetal.

A preparação do óleo também faz parte do conhecimento. Quando falamos de um taila ayurvédico, não estamos falando apenas de escolher uma erva famosa para cabelo e colocá-la dentro de um frasco de óleo. Existe uma lógica de preparo, de veículo, de combinação de plantas e de tempo. O processo também importa”, explica Nina.

É a partir desse princípio que os óleos da Taila Veda são preparados.

Amla e Bhringaraj: por que essas plantas aparecem tanto quando o assunto é cabelo?

Entre as plantas tradicionalmente presentes nas preparações capilares ayurvédicas, duas se tornaram especialmente conhecidas: Amalaki, popularmente chamada de Amla, e Bhringaraj.

Amla é o fruto da Phyllanthus emblica e ocupa um lugar importante dentro da tradição ayurvédica. Ela aparece em diferentes preparações e é tradicionalmente relacionada ao campo de Rasayana. Seu uso não está restrito aos cabelos, mas sua presença em preparações capilares indianas atravessa gerações.

Bhringaraj, por sua vez, possui uma relação histórica tão próxima com os cabelos dentro do repertório ayurvédico que aparece repetidamente em formulações destinadas à cabeça e ao couro cabeludo.

Mas uma preparação ayurvédica não precisa depender de uma única planta. É justamente a combinação que permite construir uma formulação com características próprias.

No Força de Gaya, desenvolvido pela Taila Veda para o ritual capilar, Amla e Bhringaraj aparecem ao lado de outras plantas tradicionalmente utilizadas pela marca, como babosa e alecrim. Na versão em óleo de gergelim, a formulação também recebe Brahmi.

A base do óleo também importa

Quando se fala em oleação, existe ainda outro elemento frequentemente ignorado: o veículo.

Na Ayurveda, o óleo-base não é visto simplesmente como uma substância neutra utilizada para carregar as plantas. Cada base possui características próprias e pode ser escolhida considerando a preparação e o contexto em que será utilizada.

É por isso que o Força de Gaya existe em duas versões. Uma utiliza TCM de coco, de característica mais refrescante, e outra utiliza óleo de gergelim, tradicionalmente reconhecido por suas qualidades mais aquecedoras dentro da Ayurveda.

Não existe apenas a pergunta ‘qual erva tem nesse óleo?’. Eu também quero saber qual é a base. Na Ayurveda, o veículo faz parte da formulação. Coco e gergelim não possuem as mesmas qualidades. Isso muda completamente a ideia de que oleação é simplesmente escolher qualquer óleo e passar na cabeça”, explica Nina.

Essa diferença também permite acompanhar mudanças de estação, clima e momento individual. Nina, por exemplo, costuma relacionar a base de gergelim aos períodos mais frios e a base TCM de coco aos períodos mais quentes, sempre observando a resposta individual.

Como Nina Habib ensina a fazer a oleação capilar

O ritual começa antes do banho e pode ser realizado mesmo com o couro cabeludo ainda sem lavar. O cabelo é dividido em mechas e, com o auxílio do conta-gotas, uma pequena quantidade do óleo é aplicada diretamente e próxima ao couro cabeludo. Não é necessário distribuir o produto pelo comprimento nem pelas pontas.

Depois da aplicação, a massagem é realizada com as pontas dos dedos, percorrendo o couro cabeludo com movimentos suaves. O óleo permanece por no mínimo duas horas. Quem se adapta bem ao ritual também pode dormir com o produto e realizar a lavagem no dia seguinte.

Depois, os cabelos são lavados normalmente.

Para quem está começando a prática com o Força de Gaya, Nina ensina uma fase inicial de constância, utilizando o óleo duas a três vezes por semana durante cerca de três meses. Depois desse período, a prática pode ser mantida uma vez por semana.

O mais importante para mim é entender que oleação não é excesso de óleo. É constância. Não precisa deixar o cabelo inteiro encharcado. Eu quero o óleo próximo ao couro cabeludo, quero alguns minutos de massagem e quero que essa prática consiga existir de verdade dentro da rotina. O cuidado que transforma uma rotina é aquele que conseguimos repetir”, afirma.

Quando uma tendência reencontra uma tradição

A popularização do hair oiling ajudou muitas pessoas a voltarem a olhar para o couro cabeludo. Ao mesmo tempo, conhecer a origem de práticas semelhantes permite perceber que existe uma diferença entre reproduzir um gesto visto em um vídeo e compreender o conhecimento que existe por trás dele.

A oleação dentro do universo ayurvédico envolve plantas, óleos-base, formas de preparação, massagem, tempo e constância. Existe ainda uma ideia mais simples por trás de tudo isso: o cabelo não começa nas pontas.

Durante anos eu achei que meu cabelo tinha um limite. Depois percebi que eu estava tentando cuidar somente daquilo que conseguia ver. Quando comecei a olhar para o couro cabeludo, minha relação com o cuidado capilar mudou. A raiz deixou de ser o lugar onde eu tinha medo de passar óleo e passou a ser justamente o lugar onde o meu ritual começava”, conta Nina.

O hair oiling pode estar vivendo seu momento nas redes sociais. Para a Ayurveda, porém, colocar óleo na cabeça pertence a uma história muito anterior ao algoritmo. É justamente essa história que devolve ao ritual aquilo que nenhuma tendência consegue oferecer sozinha: contexto.

Sobre Taila Veda

Fundada em 2018 por Nina Habib, a Taila Veda nasceu para traduzir a sabedoria da Ayurveda em rituais de cuidado para a vida contemporânea. Inspirada nos conhecimentos da medicina tradicional indiana, a marca desenvolve óleos ayurvédicos, cosméticos naturais e materiais educativos que convidam as pessoas a construir uma relação mais consciente com o corpo, respeitando seus ritmos e a inteligência da natureza.

A filosofia da Taila Veda parte da ideia de que o autocuidado não deve ser uma resposta apenas quando algo está em desequilíbrio, mas uma prática cotidiana de presença, observação e constância. Esse olhar deu origem a um dos principais conceitos da marca: “A pele também come”, que traduz a proposta de oferecer à pele o mesmo cuidado dedicado à escolha, à origem e ao preparo daquilo que nutre o corpo.

Sobre admin

A melhor ciência está aqui. Você está no Portal de Notícias 2A+ Cosmética: Ciência, Normas, Informações e Negócios. 2A+, Rede de Portais de Notícias sobre Life Science.

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Required fields are marked *

*